Sobre cicatrizes e xícaras quebradas

Outro dia, segurei uma xícara cheia de café quente e me queimei. Larguei o objeto no chão e o mesmo se quebrou em vários pedaços de inutilidades. Cortou meus pés. Meus olhos choraram quase que instantaneamente quando eu percebi e senti a vida. Meu sangue escorreu pelo chão.

O barulho do vidro estilhaçando entrou em um loop desgraçado. Se repetia na minha mente, sobrepondo um ao outro e me perturbando intimamente. O vidro ainda atravessava partes da minha pele e por algum motivo sórdido, não me movi. Apenas olhei o suficiente para ver o meu reflexo no chão.

Eu estava ali e tinha certeza disso. Eu pertencia. Talvez por aquele lugar estar uma zona, mesmo assim, era uma sensação boa de acolhimento. Eu sangrava e sangrar dói. Dói, por muito tempo não senti que dói, que a maldade dói. Onde me via, não reconhecia, mas sabia que pertencia. Aquele cabelo, aquela cor, aqueles olhos… Quando foi tudo isso? Era bonita, de fato. Se era bonita, poderia ser eu?

É estranho como a rotina devora a gente. Eu não estive ali por muito tempo, mas de alguma forma, eu estava. Estava me afogando em aspirações que sequer desejo de verdade. Mas o que desejo de verdade? É um grande mistério. Quero ter idade para ter certeza um dia.

Mas eu ainda sangrava. E eu ainda doía. Aprendi coisas, mas não lembro quando. Dizem que quando você apanha demais, você acaba por aprender a bater. Talvez em um desses confrontos, eu pude começar a revidar. Ainda acho que estou revidando, aos poucos. Infelizmente, ainda não deixei de apanhar e nem acho que vou. Vaso ruim não quebra, é o que dizem e nesse ponto sou de péssima qualidade.

Me vi bonita esses dias e sorri para mim no espelho. Sorri agora para o reflexo e ele sorriu de volta. Pode isso? Acho que pode. Bonita? Engraçado, né? Eu costumava ser bem pior comigo. Chegava ser cruel, mas estou bonita agora e acho isso importante de dizer. Aprendi isso também e foi uma das coisas que eu mais gostei de aprender. Gosto das curvas que a minha barriga faz e de como, de um jeito bem gracinha, faz tudo parecer uma montanha russa. Meu corpo é formado de altos e baixos. Isso não é lindo? Moro em um parque de diversões. Meus olhos mudam de tamanho de acordo com a minha fome e de vez em quando, meu cabelo muda e traduz cada estação da minha essencia. É sempre uma grande surpresa. Minha cor, mais escura, reflete o céu que admiro no mundo. Estrelas são cicatrizes de histórias bonitas demais para se jogar fora. Eu precisava aprender isso. Preciso aprender ainda mais.

Agora eu secava minhas lágrimas. Chorar cansa, o coração fica pesado e os suspiros se tornam insuportáveis. Sangrava menos agora. Parecia não ter mais nada, mas ainda podia sentir tudo e isso me deixava tranquila. A gente passa por coisas engraçadas na vida e uma delas foi morrer, momentaneamente. Às vezes a gente fica assim, sem sentir nada e é ruim, machuca do mesmo jeito, só que de forma silenciosa. De um jeito que dói quando acordamos e é ruim quando dói de manhã. É ruim quando dói enquanto o sol brilha mais. É péssimo sofrer quando precisa ser feliz.

Mesmo que eu tenha consertado as feridas, eu ainda sangrava. Minhas mãos ainda estavam queimadas. Eu sorria para quem quisesse ver, mesmo que ninguém, de fato, pudesse. E eu acho que tudo acaba se baseando nisso. Não consigo contar nos dedos os momentos ruins desse ano, mas, mesmo assim, ainda estou aqui. As inúmeras cicatrizes inundam o meu corpo e conheço intimamente cada uma delas. A ferida mais antiga às vezes ressurge e arde, pedindo que eu me entregue. Aos poucos, consegui aprender a fechar cada uma delas e rejeitar seus pedidos melancólicos. E tudo se baseia nisso, nas marcas que são feitas ao longo da vida. Assim que pude explorar, conheci um lado da minha pessoa que não pude sacar antes. Não foi amor a primeira vista, mas hoje é. Toda vez que acordo e encaro o espelho, vejo nele o motivo de ainda perecer aqui. Cicatrizes, elas moldam que eu sou.

Se você chorou mais que sorriu, esteja pronto. Tua fantasia há de ser recompensada. Se não, se sorriu e foi feliz, consiga a receita e prepare todo ano. Toda hora. É a mensagem de quem chorou, sorriu, sofreu e quase viveu e no final, renasceu. Se aqueça e te olhe fundo, você está pronto para outra. Aqueça o café e deixa que a xícara se quebre, mesmo que você tenha que limpar tudo depois. Mergulhe no teu caos, só faça dele tua segurança depois.

Tenha um feliz ano novo.
~Ms.Brightside

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8 comentários sobre “Sobre cicatrizes e xícaras quebradas

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